Resenha: Preexistências de Brasília: Reconstruir o Território para Construir a Memória, de Lenora Castro Barbo

Resenha: Preexistências de Brasília: Reconstruir o Território para Construir a Memória, de Lenora Castro Barbo

Preexistências de Brasília: Reconstruir o Território para Construir a Memória, de Lenora Castro Barbo, é, essencialmente, a versão publicada de sua dissertação de mestrado, apresentada em 2010 no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília. Nesta obra, Barbo apresenta uma tese ousada e bem fundamentada: a ocupação territorial de Brasília e do Distrito Federal antecede a fundação oficial da cidade em pelo menos 250 anos. Longe de ser um espaço vazio ou “virgem”, como Brasília é frequentemente imaginada nas narrativas nacionais, o território carrega camadas de pré-existências sociais, culturais e históricas.

A tese de Barbo foi avaliada por uma comissão rigorosa, composta pelos professores Andrei Rosenthal, Dra. Silvia Fischer e Professor Estevan Martins, do Departamento de História. Na introdução, a autora deixa claro que seu objetivo principal é a reconstrução histórica do território do Planalto Central. Esse objetivo geral se desdobra em metas específicas: uma descrição detalhada e investigação do atual Distrito Federal, a recuperação e análise da cartografia histórica da região, e a identificação e documentação de cronistas e viajantes que percorreram o Planalto Central em séculos passados. O livro apresenta sistematicamente esses relatos, culminando em um corpus documental que descreve o território há mais de trezentos anos.

A estrutura da tese é direta, o que torna sua complexidade ainda mais impressionante. A investigação começa no século XVI, traçando os relatos mais antigos do Planalto Central, e, a partir daí, Barbo constrói seu argumento com base em uma cuidadosa sobreposição dessas narrativas. Cada capítulo está alinhado a um objetivo específico, conferindo clareza e direção ao trabalho. O Capítulo 1 dedica-se à descrição do território; o Capítulo 2, ao mapeamento; o Capítulo 3, à experiência de viajar pelo planalto; o Capítulo 4, à caminhada pelo território; e, finalmente, o Capítulo 5 aborda o viver no território—momento em que Barbo alcança o cerne do seu projeto: a reconstrução e recuperação dos trajetos, descrições e habitações que antecedem o chamado “Plano Piloto” de Brasília.

O que emerge dessa estrutura vai além de um levantamento histórico. Na determinação de descobrir vestígios de habitação, assentamentos esquecidos e casas modestas espalhadas pelo planalto, Barbo produz um trabalho ao mesmo tempo arquitetônico, historiográfico e geográfico. É, em última análise, uma releitura ambiciosa do Distrito Federal—não como uma capital inventada em terra vazia, mas como um palimpsesto de séculos de presença humana.

No plano crítico, a obra de Barbo é fascinante. Embora se proponha a produzir uma dissertação em arquitetura e urbanismo, minha impressão é que ela se lê muito mais como um trabalho histórico—que se desdobra na dimensão geográfica—do que como um estudo estritamente arquitetônico. Destaca-se sua notável compilação de documentos que atestam séculos de presença e ocupação humana no Distrito Federal. Curiosamente, ela reserva a discussão sobre as habitações—elemento mais diretamente ligado à arquitetura—apenas para o capítulo final.

Isso leva a pensar que, no decorrer da pesquisa, Barbo “tropeçou” em algo maior e mais instigante do que seu foco arquitetônico original. Não que o estudo das habitações seja irrelevante—afinal, trata-se de uma tese de arquitetura—mas a verdadeira realização está na recuperação e apresentação de um acervo documental único e valiosíssimo. Para historiadores, esse conjunto de fontes oferece uma lente extraordinária para compreender as pré-existências de ocupação no Planalto Central.

Fica claro que a pesquisa de Barbo não pode ser confinada a uma única disciplina. Ela começa com arquitetura e urbanismo, mas entrega, em última análise, algo que se assemelha a um pequeno tratado de geografia e história. Essa observação não é uma crítica negativa; ao contrário, evidencia sua versatilidade em transitar por fronteiras disciplinares e dialogar com múltiplas tradições acadêmicas.

Ainda assim, do ponto de vista histórico, certas análises ficam faltando. Notadamente, a contextualização histórica dos documentos citados é apenas sugerida, sem ser plenamente desenvolvida. Essa ausência, porém, não deve ser vista como uma falha. Barbo não se apresenta como historiadora, nem propõe interpretar suas fontes sob a perspectiva da historiografia—mesmo que seu trabalho frequentemente nos dê a impressão de tal incursão. Seria, nesse sentido, interessante conhecer as críticas do Professor Estevan Martins, do Departamento de História, que compôs a banca, mas cujas intervenções específicas não tive acesso.

No plano do diálogo e da relevância, a obra de Barbo é de extrema importância para estudantes e pesquisadores do Distrito Federal, tanto do ponto de vista geográfico quanto historiográfico—even para aqueles, como eu, que não se dedicam ao período colonial. Por quê? Ao documentar as pré-existências de Brasília, Barbo demonstra que o território possui uma história rica muito anterior à construção da capital. Essa perspectiva permite situar todos os desdobramentos posteriores—incluindo produção cultural e ativismo negro, áreas que explorei em minha própria pesquisa—dentro de um arcabouço ancorado em quase 300 anos de história. Assim, a pesquisa de Barbo torna-se referência essencial para qualquer pessoa interessada em compreender as camadas históricas profundas de Brasília e do Distrito Federal. Sua obra nos lembra que a história de um lugar nunca se resume ao que acontece após sua fundação oficial; ela se constrói sobre séculos de presença, movimento e memória humana.

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