Os Militares e construção do Distrito Federal

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A influência dos militares na construção da capital federal em 1960 é profunda e remonta ao próprio advento da República em 1889. Desde os primeiros anos do regime republicano, o Exército brasileiro desempenhou um papel central na definição de projetos nacionais, especialmente aqueles voltados à ocupação do território e à consolidação da soberania sobre áreas interioranas. A decisão de transferir a capital do litoral para o interior, concretizada com Brasília, foi moldada por esse imaginário militar de integração e controle territorial.

As missões exploratórias e o projeto nacional

A primeira iniciativa sistemática foi a Missão Cruls, em 1892, liderada pelo astrônomo e geógrafo belga Luís Cruls, a mando do governo de Floriano Peixoto. A missão, composta por militares, engenheiros, médicos e naturalistas, realizou estudos geográficos, climáticos, topográficos e de recursos naturais em uma área de aproximadamente 14.400 km² no Planalto Central. O relatório da Missão Cruls foi pioneiro ao descrever a viabilidade de instalar a futura capital nessa região, destacando sua posição estratégica no interior do Brasil.

Outras missoes, foram lideradas por militares: em 1946 — missao Poli Coelho; Comissao Caiado Castro, em 1953.

O tenentismo e a política territorial

Durante as décadas de 1920 e 1930, o movimento tenentista — uma série de levantes e manifestações promovidas por oficiais de baixa e média patente — colocou a questão da centralização e modernização do país no centro do debate político. Embora os tenentes não tivessem um projeto claro para a mudança da capital, eles compartilhavam a visão de que o Brasil precisava romper com as estruturas oligárquicas e interiorizar o poder político. O mito da “redenção pelo interior” ecoava entre os tenentes, que defendiam um Estado forte, centralizado e nacionalista.

Getúlio Vargas chegou ao poder em 1930 com o apoio decisivo de setores militares ligados ao tenentismo. Esses militares viam em Vargas a oportunidade de implementar reformas modernizadoras e romper com o domínio das oligarquias estaduais. O golpe de 1937, que instaurou o Estado Novo, contou com a anuência e participação direta das Forças Armadas. Durante esse período, o Exército consolidou-se como um ator central no Estado, e o projeto de nacionalização e interiorização do território ganhou força.

A queda de Vargas, em 1945, também teve participação militar. Setores das Forças Armadas, incomodados com a permanência do autoritarismo e temerosos de uma reeleição de Vargas, pressionaram sua renúncia. Ainda assim, sua posterior volta ao poder em 1951, pelo voto direto, só se concretizou graças à neutralidade ou ao consentimento de partes do alto comando militar. Em 1954, quando Vargas enfrentava uma intensa crise política, novamente os militares foram decisivos: sob pressão de generais e da Marinha, o presidente foi compelido a renunciar — o que acabou precipitando seu suicídio.

Em 1955, a eleição de Juscelino Kubitschek e João Goulart foi contestada por setores conservadores, civis e militares, que viam em ambos uma ameaça à estabilidade e uma herança varguista. Diante da possibilidade de um golpe para impedir a posse dos eleitos, o general Henrique Teixeira Lott, então ministro da Guerra, liderou um contragolpe preventivo para garantir o respeito à Constituição. Este episódio consolidou a legitimidade do governo JK aos olhos das Forças Armadas e fortaleceu sua posição política.

O apoio militar foi fundamental para que Juscelino conseguisse levar adiante o ambicioso plano de construção de Brasília. Para os militares, a nova capital simbolizava não apenas modernização, mas também segurança nacional: ao ser instalada no centro do território, a cidade reforçava o controle do Estado sobre regiões até então periféricas, ampliando a vigilância e a integração do território. Brasília era, nesse sentido, a expressão espacial de um projeto político-militar de unidade e centralização nacional.

Competências Gerais da BNCC:

  • Competência 1: Valorizar e utilizar os conhecimentos historicamente construídos sobre o mundo físico, social, cultural e digital para entender e explicar a realidade, continuar aprendendo e participar de forma crítica, consciente e ética.
  • Competência 2: Exercitar a curiosidade intelectual e recorrer à abordagem própria das ciências, incluindo a investigação, a reflexão crítica, a imaginação e a criatividade para a formulação de hipóteses e resolução de problemas.
  • Competência 5: Argumentar com base em fatos, dados e informações confiáveis para formular, negociar e defender ideias, pontos de vista e decisões comuns que respeitem e promovam os direitos humanos, a consciência socioambiental e o consumo responsável.

Componentes Curriculares:

  • História:
    • EF06HI03 (6º ano): Analisar as transformações políticas e sociais no Brasil nas primeiras décadas do século XX, incluindo a República Velha, o movimento tenentista, a Era Vargas e o papel das Forças Armadas.
    • EF09HI06 (9º ano): Compreender a atuação das Forças Armadas no Brasil republicano, os processos políticos e sociais que levaram à construção de Brasília e as relações entre poder civil e militar.
  • Geografia:
    • EF06GE06 (6º ano): Estudar a organização do espaço brasileiro, a ocupação do território e as intervenções humanas nos ambientes naturais, incluindo a interiorização da capital federal.
    • EF09GE07 (9º ano): Analisar as dinâmicas territoriais brasileiras, a importância da localização geográfica de Brasília e os impactos socioambientais de grandes obras de infraestrutura.
  • Ensino Fundamental – Educação Cívica e Ética:
    • EF15EF01 (5º ano): Compreender a organização dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário e a importância da Constituição para a garantia da ordem democrática.
    • EF09EF02 (9º ano): Refletir sobre o papel das Forças Armadas na defesa da Constituição e da democracia, bem como a relação entre militares e política no Brasil.

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